É PRECISO UMA ALDEIA PARA CRIAR UMA CRIANÇA
O mês de Julho foi um mês de emoções fortes, como ultimo do
ano lectivo foi um mês de festas de despedidas e de balanços.
Na reunião com a educadora, que é uma pessoa com mais de 30
anos de experiência na educação e que eu idolatro, para além de falarmos do
desenvolvimento do traquina, acabamos sempre por divagar e chegar a conclusões
interessantes.
Por defeito (ossos do oficio), tendo sempre a comparar a
conjuntura atual da sociedade e da maternidade em particular, com a aquela que
os nossos pais e avós viveram e que me é testemunhada diariamente pelos utentes
com quem trabalho.
Muitos deles nunca planearam sequer ter filhos era algo que
acontecia naturalmente e iam-se criando com a politica do “onde comem 3 comem 4”.
- Hoje em dia há que equacionar se o mês em que o miúdo é
concebido vai bater certo para que nasça no mês em que a avó está de férias
para dar uma ajuda.
- Há que juntar dinheiro durante 3 anos para puder pagar as
vacinas e o pediatra pelo menos no primeiro ano de vida (ou então vender um
rim).
- Há que ter uma carreira estabilizada para assegurar pilim
para pagar a creche e ainda sobrar dinheiro para viver (mais uma equação difícil).
-Há que criar todo um poder de encaixe para sobreviver aos
bitaites da vizinhança e afins: “aí não lhe colo que ele habituasse”, “aí se
lhe dá chucha ele já não pega na mama” “ai está muito gordo” “ai está muito
magro” ai isto ai aquilo. A propósito deste assunto lembro-me que antes do meu
pequeno nascer alguém me ter perguntado o que é que eu pensava fazer aos gatos,
visto que, aparentemente, era impensável criar uma criança numa casa onde
existem gatos. Respondi do alto dos meus 8 meses de gravidez e 7 de enjoos: “Jesus
nasceu no meio de vacas, burros e ovelhas e não se deu nada mal” … Saiu-me não
sei como, mas ainda hoje estou orgulhosa.
-Há que, sobretudo, ter disponibilidade emocional para
perante tanta pressão conseguir disfrutar da maternidade e vivê-la com alegria.
No fundo exigem-nos que sejamos “super-pais “. Ou será que
somos nós que exigimos isso de nós próprios?
Sou a favor da parentalidade positiva mas confesso que perco
a paciência mais vezes do que gostaria, tenho mais duvidas do que achava que ia
ter, sinto-me culpada quando o meu banho dura mais do que 5 minutos e às vezes
fujo para a varanda e bebo uma cerveja esperando que os planetas de alinhem e a
paciência volte.
Depois penso que um dia um sábio (o pediatra do meu filho), disse
que é preciso uma aldeia para criar uma criança e foi exactamente assim que nós
fomos criados. Com uma avó, uma tia uma vizinha ou uma amiga que dava uma
mãozinha quando estávamos doentes e os nossos pais tinham de ir trabalhar ou
tinham só de ir comprar o pão. Eu por
exemplo, nem frequentei o “infectário” só entrei na escola com 4 anos, sortuda.
Hoje em dia, temos 5 meses de” licença” de maternidade- nome
ridículo: “Desculpe Sr. Álvaro tive um filho dá-me licença que falte para
cuidar da cria?”.
Ora a partir daqui é a
descambar, os miúdos entram no “infectário” ficam doentes 25 dias por mês e lá
temos nós de correr ao pediatra para pedir baixa para mostrar ao Sr. Álvaro que
nos despede à mínima oportunidade.
As avós estão a trabalhar porque hoje em dia só se reformam
aos 70 anos, os vizinhos nós nem sabemos como se chamam quanto mais deixa-los a
cuidar os nossos filhos.
Sermos super-pais é conseguirmos gostar da maternidade
apesar de tudo isto.
Acredito que não somos nós que estamos mal é o Mundo que
promove o ter em vez do ser.
Parabéns a todos nós super-pais desta geração.


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